Coronavírus e isolamento social: como manter a saúde emocional e mental

O coronavírus trouxe para o mundo uma situação inédita: a maioria das pessoas precisou se isolar em casa para evitar o aumento do contágio. Em meio a esta pandemia, o isolamento social pode ser um grande desafio para a saúde mental das pessoas, principalmente das que sofrem de depressão, ansiedade e síndrome do pânico. Afinal, se manter em casa durante muitos dias, sem poder sair para fazer as atividades que cada um estava acostumado a fazer, não é tarefa fácil. O medo e a ansiedade são sentimentos normais no ser humano em situações de risco ou ameaça, pois é uma forma instintiva de se defender. No entanto, quando isso extrapola os níveis normais significa que a pessoa precisa procurar a ajuda de profissionais qualificados.

A pedagoga Rachel Gonçalez, de 64 anos, confessa que sentiu muita angústia e ansiedade diante desta situação. “Eu me sinto assim em face de nossa absoluta incapacidade de fazer algo para deter esse vírus. A constatação de que o ser humano não consegue um tratamento ou vacina para o COVID-19 me causa uma perplexidade angustiante”. Ela conta também que as notícias impactam diretamente no que sente. “Pensamentos ruins invadem a minha mente e me trazem angústia, que por sua vez gera ansiedade em mim”.

Rachel está trabalhando home-office durante este período de quarentena. Porém, a carga horária do expediente diminuiu consideravelmente. Por isso, para ocupar a maior parte do tempo que lhe resta, ela diz ter sentido a necessidade de consumir os filmes e séries disponíveis em plataformas online. Além disso, ela conta que as tarefas domésticas são, para ela, uma forma de manter a mente ocupada.

Assim como Rachel, o estudante Mateus Oliveira, de 23 anos, assisti aos noticiários diariamente. “Eu me sinto bem informado sobre a doença e as medidas de combate a ela, mas me sinto triste por ter que ficar por um tempo indeterminado em isolamento social, sem ter contato com a minha namorada”.

Praticar atividades físicas regulares e manter uma alimentação balanceada foram algumas das formas que Mateus encontrou para manter sua saúde mental e emocional em equilíbrio durante esta quarentena. Ele também assiste aos filmes de algumas plataformas e programas da TV para ocupar o seu tempo. Mateus confessa que sente saudades das atividades sociais, principalmente das que envolvem aglomerações. Por isso, ele mantém contato com as pessoas que ele gosta por meio das redes sociais durante este período de isolamento social.

O estudante Matheus Lucchesi, de 23 anos, também procura manter contato virtual com os seus amigos para se manter equilibrado emocionalmente e mentalmente durante este período. “Tenho tentado conversar com eles para fazer atividades online juntos, como jogar, assistir a um filme no mesmo horário ou fazer videochamadas”. Em sua percepção, os noticiários deixam as pessoas com medo, nervosas e em pânico. “Acredito que as notícias têm que ser realmente transmitidas para deixar a população informada da evolução da doença, mas eu não assisto, pois me assusta e me deixa muito nervoso”.

Ele conta que, no início da quarentena, se sentiu feliz por poder ficar em casa e ter tempo para ele mesmo. No entanto, esse sentimento não durou por muito tempo. “Depois da segunda semana de isolamento, comecei a sentir muita tristeza e solidão por estar tendo tão pouco contato social”. Matheus faz terapia com um psicólogo e recebe o apoio da família neste momento de isolamento. “Recorri aos meus amigos próximos e à minha família para melhorar minha autoestima e não me sentir tão mal”.

Não só Matheus evita assistir aos noticiários durante este momento de pandemia. A advogada Alice Salz, de 24 anos, também procura se distanciar das notícias para se manter equilibrada. “De vez em quando eu passo na sala e vejo minha mãe assistindo ao noticiário, mas, ao ouvir ou ler determinadas manchetes abstraio e não me deixo contaminar”. Ela defende que é importante as pessoas filtrarem as informações e lerem apenas notícias que trazem algum conteúdo realmente relevante. “No Reino Unido vão começar a testar uma possível vacina contra o coronavírus em humanos. Além disso, mais de 50% das pessoas infectadas pelo COVID-19 já se recuperaram da doença. Acho bem melhor ler isso do que ler que, por dia, 4,5 mil mortes ocorrem nos EUA, ou que o número de países que se tornaram epicentro da doença só sobe”.

Alice conta que, para se manter emocionalmente equilibrada neste período, procura ocupar o tempo fazendo exercícios funcionais, lendo livros e fazendo atividades domésticas. No entanto, em alguns dias, ela não sente vontade de fazer nada, pois se sente ansiosa e desanimada. “Sempre que tenho essa sensação ruim, procuro descansar para ver se isso passa ou então assisto a alguma live que trate do assunto ansiedade em meio ao isolamento social”.

A sensação de ansiedade que Alice e muitas outras pessoas sentem em alguns dias desta quarentena é um mecanismo de defesa, segundo explica a psicóloga Jussara Fonseca. “Isso é chamado de luta e fuga. O cérebro do ser humano desenvolveu isso para enfrentar situações de risco, o que, na pré-história,  foi primordial para a sua salvação, tendo em vista que o homem convivia com predadores”. Ela explica que, diante de tantos riscos iminentes pelos quais o homem passa atualmente, como catástrofes, assaltos e a atual pandemia do coronavírus, o mecanismo de defesa criado pelo cérebro do homem é acionado. “Então a sensação de ansiedade e estresse é para nos mover, fazer com que tomemos atitudes, tal quais os homens das cavernas”.

A psicóloga acredita que o noticiário contribui para que as pessoas tenham sensações ruins. “Ao lerem as notícias com estatísticas diárias de morte, imagens de caixões sendo jogados em sepulturas, como se a humanidade estivesse entrando em extinção, deixam as pessoas aterrorizadas e isso não contribui em nada”. Por isso, Jussara dá algumas dicas para as pessoas se manterem equilibradas nesta quarentena. “Façam exercícios físicos dentro dos limites possíveis para terem motivação, façam uma lista e criem prioridades, entrem em contato com pessoas que, por falta de tempo, não conseguiram mais falar e façam atividades introspectivas para entrar em contato consigo mesmo”. Além disso, ela sugere que os indivíduos não fiquem cultivando pensamentos e sentimentos destrutivos, pois podem gerar medo, angústia e impotência. “Aconselho que vocês vivam o hoje, um dia de cada vez”.

Por Letícia Montilla (Oficina Multimídia em Jornalismo)

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s