Crônica| Você na janela do hospital

Eu acordei numa manhã e você estava ali, correndo de porta em porta e empurrando um carrinho que parecia mais pesado que seu corpo. Você andava leve, meio sem fôlego, de máscara, luvas e touca. Gostaria de lhe dar um abraço e dizer que nas madrugadas em que acordo do nada, ainda o vejo, e nas tardes e noites, você também está ali.

Enquanto isso, em casa, eu caminho de um cômodo para outro, preocupada com a comida que esquenta no fogo e medo de um dia precisar lhe pedir ajuda. Das poucas vezes em que fui ao mercado, o meu coração se fez de bomba relógio, acelerei o passo e não via a hora de voltar para a janela e vê-lo trabalhar. Eu prezo por você porque consigo sentir seu medo mesmo apenas pelas sobrancelhas franzidas. 

Eu me sinto nas trincheiras enquanto você está no meio do campo de batalha tentando reverter os danos com uma voz calma. Será que eu posso ajudar? Perguntei pela janela e você não me ouviu… ou então não teve tempo para responder. Talvez eu nem tenha emitido som e a pergunta não passou de um pedido introspectivo. Rápido, em silêncio, eu volto a te ver pela janela da minha casa e faço promessas de não sair daqui, a não ser que seja muito necessário.

Em dias de chuva, sinto falta do calor humano. Em dias de sol, corro para o segundo andar para sentir que a esperança ainda bate na minha casa, mas ainda assim te vejo de lá. Alguns momentos me senti mal por estar de biquíni enquanto você aparentemente não tem tempo para se despir das roupas de hospital, todavia, estive em casa para que não precisasse vir me socorrer. 

Aqui no meu quarto, faço arrumações malucas, assisto a umas aulas de pijama e gravo umas matérias para a TV. Na sala, eu danço, assisto série, almoço deitada e declaro saudade para os quatro cantos do meu celular. Na cozinha, invento pratos e lavo louça para me distrair. Os banhos não têm sido mais tão demorados porque não tenho para onde ir. Por isso, eu me divirto sozinha para que nem minha saúde física ou mental resolvam ir embora por esta porta. E eu lhe vejo na janela do hospital. Um dia, espero que você me veja por lá também, sorrindo, porque a guerra finalmente acabou. 

Por Kali Dinis, futura jornalista que mora em frente a um hospital no Grajaú (Oficina Multimídia em Jornalismo)

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