Opinião | A falta de empatia e o ciclo infinito de ódio na discussão política

Não existe uma palavra mais adequada do que “polarização” para resumir a política mundial nos últimos anos. Ao contrário do que muitos pensam, não há uma distinção de lados nessa triste história. Independentemente de sua ideologia política, todo cidadão minimamente ético sente, e vai sentir, em sua consciência uma sufocante sensação de raiva e impotência perante a guerra política, social e ideológica que domina as pautas do Brasil e do mundo. 

Aflorando emoções negativas e alterando a forma como enxergamos a nossa realidade, o “ódio” vem sendo amplificado ao máximo pelo bombardeamento diário de notícias preocupantes, acontecimentos polêmicos, opiniões contraditórias, tragédias históricas e intrigas políticas. A quarentena e seus respectivos efeitos negativos no cotidiano só tendem a cultivar ainda mais essa extremificação na ideologia das massas.

Não há para onde fugir. Acostumados a utilizar a internet como um meio de entretenimento, a grande massa presenciou as divertidas redes sociais se transformando abruptamente em um violento cenário de uma guerra ideológica que parece nunca terminar. Sejamos sinceros, é possível contar nos dedos quantas vezes você já viu uma discussão de política terminar com um dos lados mudando de opinião sobre o assunto. Por ironia do destino, o que acontece é justamente o contrário.

Sentir ódio e desprezo por quem defende ideias opostas a sua ideologia acaba por não permitir nenhum tipo de argumentação justa e pacífica. O que deveria ser uma tentativa saudável de conscientização social ou política, se torna um ataque em massa de ódio,  muitas vezes acompanhados por argumentos infantis apimentados por uma arrogância elevada nas alturas. 

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O líder indiano Mahatma Gandhi é um dos maiores críticos do revanchismo (Imagem: ONU/Divulgação)

Por exemplo, na internet muito se discute sobre o tal do “racismo reverso” que os brancos supostamente sofrem. Não é errado dizer que existem páginas e mais páginas de discussões sobre esse assunto, todas recheadas de xingamentos e muito ódio gratuito por parte de ambos os lados da história. Toda essa polêmica acontece porque a palavra “racismo” significa “pregar superioridade de uma raça ou etnia em relação a outra”, definição que, por sua vez, é quase que criminalizada pelos membros do movimento negro.

Será mesmo que lutar pela verdadeira definição de um termo é realmente algo importante para acabar com o racismo na sociedade? Afinal, o racismo contra pessoas brancas existe ou isso é uma invenção? Em um mundo ideal, a resposta para tais perguntas não deveria importar. A irrelevante briga pela “exclusividade” em torno desse termo não traz absolutamente nenhum benefício para nenhum dos lados, além de contribuir para gerar mais discussões tóxicas. 

Todas as palavras que denominam formas de ódio contra raças utilizam o termo “fobia” ou “anti” como seus respectivos complementos. Seguindo essa lógica, porque o “racismo” é o único termo diferente? Já parou para pensar que usar outro termo que se refira especificamente ao preconceito contra negros, como por exemplo “negrofobia”, poderia evitar tanta dor de cabeça? Tentar entender o outro lado e negociar uma solução simples como essa seria uma ótima maneira de reduzir o conflito entre todos. Isso só não acontece porque ninguém quer dar o braço a torcer para escutar e respeitar a visão daqueles de fora da sua bolha. Isso também vale para muitas polêmicas além do contexto político.

Pense bem, por mais que essa mudança possa ser considerada “injusta” para alguns, não seria mais benéfico para o movimento negro evitar conflitos desnecessários e promover a igualdade ao lado dos críticos do movimento? É preciso entender que nem todos que criticam o uso dessa palavra são racistas ou monstros preconceituosos. Do outro lado, é preciso entender que ninguém quer diminuir a importância da vida de outras classes ao lutar pelo fim do preconceito. O problema é que nenhum lado quer admitir que pode estar errado, não importa o que aconteça.

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Só é possível mudar opiniões se você tentar enxergar a questão pelos olhos do outro – Imagem: Pixabay

A tentativa de impor ideologias de maneira agressiva e a insensibilidade perante as outras visões de mundo são as principais atitudes responsáveis por alimentar esse ciclo de ódio que se repete desde os primórdios da civilização humana. Não importa se o seu lado realmente luta pelo fim do preconceito, se você age pregando o preconceito contra aqueles que tem preconceito. Eu entendo que é extremamente clichê e, de certa forma hipócrita, defender isso, porém é fato que esses ataques infantis só tendem a prejudicar a sua causa ao inflamar ainda mais o discurso dos opositores. 

Muitas vezes, o que mais divide a gente não é o objetivo que queremos atingir, mas o caminho que acreditamos que seja melhor para se chegar até lá. Quase todo mundo é contra a corrupção, contra a fome, contra a violência, enquanto o ódio realmente puro e sem sentido é a grande minoria dos casos.

É preciso parar com a mania de ficar colocando rótulos em quem pensa diferente, e negando as pessoas somente por conta desses rótulos. Nós até podemos discordar em certos pontos, mas isso não é justificativa para deixar de o outro lado. Nenhum ser humano gostar de ser xingado e rotulado. Se uma pessoa está falando coisas que me parecem absurdas, eu tenho certeza de que não é o meu xingamento e o meu rótulo que vão fazer com que a pessoa repense suas ideias. Existe uma diferença abismal entre “odiar” e “discordar”.

Por causa dessa insensibilidade imponente em escutá-los, o lado acusado se sente injustiçado, desrespeitado e humilhado. Por consequência, é de se esperar que esse grupo tente revidar com a mesma força, e vice-versa. É justamente nesse “bate e volta” de argumentos insensíveis e hipócritas que o ciclo infinito de ódio que divide a nossa sociedade é construído.

Não importa qual lado começou a briga, tentar revidar na mesma altura só te tornará tão errado quanto o outro. É óbvio que existem momentos onde nem todos conseguem conter a sensação de injustiça e indignação. Por essa razão, não é fácil pedir para que grupos sociais injustiçados por séculos tentem entender essa lógica.

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Martin Luther King recebeu o Prêmio Nobel da Paz em 1964, pelo combate pacífico à desigualdade racial (Imagem: Pixabay)

Mesmo que seja possível “eliminar” a desigualdade e as ideologias opostas por meio da imposição agressiva e da força bruta, essa violência “justificada” em longo prazo só irá aumentar o revanchismo entre aqueles que foram destituídos do seu status de poder. Qualquer grupo que tenham seus semelhantes oprimidos ou ofendidos de alguma forma tende a desenvolver ódio contra os opressores. Por mais que tentemos, não é possível mudar essa característica inerente da humanidade como um todo. É impossível acabar com o revanchismo, mas ainda é possível evitá-lo.

Se sentir indignado com injustiça é algo humano, porém, por mais duro e injusto que seja, aprender a controlar esse sentimento e agir com empatia ainda é a única maneira possível de instaurar a verdadeira paz no mundo. Não é à toa que foi justamente por pregar essa filosofia pacífica que Martin Luther King se tornou uma das figuras mais influentes da história do ativismo negro.

Não são todos que vão concordar com as ideias apresentadas neste texto, e isso é completamente aceitável. Deixar se levar pela raiva contra a opressão em momentos críticos é uma característica humana e isso não deve ser julgado por ninguém. Pelo contrário, é preciso tentar entender o motivo desse ódio sem julgamentos prévios a fim de que seja possível desenvolver estratégias eficientes para suprimi-lo. Enquanto o diálogo existir, a violência nunca vai ser necessária para construir uma sociedade melhor. Nunca deixe ninguém te dizer o contrário disso.

Por Rhuan Bastos (Oficina Multimídia em Jornalismo)

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