Além de professoras, de estarem em home-office e precisando lidar com os desafios de lecionar à distância, essas mulheres também são mães e estão sobrecarregadas

Com o excesso de tarefas durante a pandemia, a rotina de mães professoras têm sido cada vez mais desafiadora. Uma pesquisa feita pelo movimento Parent  in Science, entre abril e maio de 2020, com 15 mil professores de várias regiões do Brasil, confirmou o que algumas mulheres já vinham questionando: que a pandemia aumentou a desigualdade entre homens e mulheres.

A pesquisa mostra que apenas 8% das docentes está conseguindo trabalhar remotamente, contra 18,3% dos homens. Ainda de acordo com o levantamento, as professoras também ficaram para trás no cumprimento dos prazos. Das professoras com filhos, 66,6% conseguiram cumprir os prazos, enquanto esse percentual para professores que também são pais ficou em 77,1%. Além de cuidar da casa e dos filhos, as mulheres têm  que conciliar a rotina com aulas a serem gravadas, tarefas a serem postadas em plataforma virtual, além de precisarem tirar dúvidas de alunos e comparecer a reuniões pedagógicas online.

Caroline Souza, 26 anos, é pedagoga formada pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), professora em escola particular e “mãe em tempo integral”, como ela mesmo descreve em sua rede social, de uma menina de 3 anos, a Alice. Além disso, complementa sua renda como consultora de beleza da Mary Kay. Mãe solo, conta como foi quando teve Alice, ainda na faculdade: “Me tornei mãe aos 23 anos, na metade da graduação, e os desafios sempre me moveram”, lembra. “Às vezes, tinha que levá-la para a universidade. As vezes, não podia ir pois estava doente e dependia de mim”. A vida nunca foi muito simples para Carol e, durante a pandemia, pareceu ficar ainda mais complexa:

“Agora, na pandemia, tem sido um desafio enorme dar conta de casa, minha filha e o trabalho. Sozinha. Alice é um sonho realizado, minha profissão também! Então, não consigo abrir mão de nenhum dos dois. Unir meu trabalho com os cuidados dela como prioridade foi a forma que encontrei de sobreviver ao caos, foi a forma que encontrei de superar os obstáculos, de enfrentar esse mundão pelo que quero representar para ela”, diz a educadora e mãe. 

Como mãe, Caroline destaca o desejo de que sua filha cresça sabendo que teve uma mãe presente que trabalhou muito para dar o melhor para as duas. “Quero que ela não tenha medo e se tiver, que os encare como eu fiz. Que ela entenda que é muito difícil, mas não é impossível!”. Já, como professora, Caroline comenta sobre como o tratamento dado pelo governo do Rio às crianças, na educação, tem sido deficiente e carece de acessibilidade:

“Em um país, especificamente uma cidade, onde não há iniciativa para levar educação de qualidade a toda a população em anos normais, diante de uma pandemia a escassez foi generalizada. Não há como falar de educação sem acessibilidade. Não temos isso no Rio de Janeiro”, reflete.

A exaustão das professoras têm relação também com a forma já consagrada de trabalhar, que vai além dos portões da escola. Levar materiais escolares para correção, planejamento, entre outros; já fazia parte da rotina de muitas profissionais da educação, inclusive de Mirella Gouvea, de 36 anos. Agora, na pandemia, com o espaço de trabalho e de convivência familiar mesclados em um, a situação se agravou.

Mirella e seu filho, Bento, compartilhando a mesma mesa – enquanto ela prepara aulas no notebook, também auxilia Bento nas lições da escola. Foto: arquivo pessoal.

Mãe do Bento, de 4 anos, e gestando a Agnes, a professora de Inglês da Prefeitura do Rio de Janeiro e do Ibeu, conta como a pandemia impactou sua rotina. Durante a pandemia, as coisas se agravaram muito, porque não tenho mais aquele tempo dele [Bento] na escola para que eu possa trabalhar e cuidar da casa. Tenho que dar conta do que dava antes, com ele em casa. Mas não é apenas isso. Tenho que suprir tudo aquilo que ele tinha na escola. Realizar as tarefas,  distração,  promover o criativo, entre outros”, reflete.

Conciliar o ensino para os alunos e para seu próprio filho foi cansativo para Mirella, que acredita que o ensino remoto não é o ideal para crianças pequenas na faixa etária do filho. O contexto atual fez a educadora temer pelo futuro escolar não só do filho, mas também dos alunos. 

“Como mãe, me sinto fracassada, pois não tenho conseguido fazer as atividades com ele com frequência. Estou física e mentalmente fatigada. Como professora de Inglês, tenho consciência de que meus alunos perdem muito com a interação também. Por mais que eu tente passar o maior conteúdo autêntico para eles, por vídeo, sei que eles não têm a oportunidade da repetição e da certificação de que o quê eles produzem esta certo ou não”, relata Mirella.

Desde o início do isolamento social e implementação das aulas remotas, meses se passaram e o cansaço entre as mães e professores só aumentou. No caso das mulheres, que cumprem as duas funções em tempo integral, a falta de motivação está presente constantemente. O futuro da educação no país está incerto, pois as classes mais afetadas – as crianças e as professoras – são a base para toda e qualquer evolução.

Mirella prepara suas aulas enquanto seu filho, Bento, faz as lições da escola ao seu lado, na mesa. Foto: arquivo pessoal.

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