A pandemia do coronavírus pode atrapalhar o sonho de muitos jovens que desejam cursar uma universidade pública ou particular. Uma das barreiras impostas aos vestibulandos se dá pela mudança das aulas presenciais para on-line, realidade pouco habitual para alunos postulantes ao ensino superior.

“Está muito difícil, porque não estou conseguindo fazer esse estudo. É bem diferente de tudo o que já fiz na vida. Quando havia o presencial meu foco era diferente. Eu não esperava essa pandemia, assim como muitos dos meus colegas. Pretendo cursar Engenharia e toda essa situação tem me deixado muito decepcionada pois as minhas expectativas eram gigantes”, desabafa Luiza Santos de Honório, de 20 anos, moradora de uma favela do bairro de Quintino.

O estudante Caio Matos Rochedo, de 19 anos, morador da cidade de Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense, conta que chegou a se inscrever no Enem, mas aos poucos foi perdendo as expectativas de realizar a prova com êxito, pois acredita que não há motivação necessária para continuar estudando em meio a uma crise educacional imposta pela Covid-19.

Candidatos chegam para o primeiro dia de provas do Exame Nacional do Ensino Médio, em 2019 (Rovena Rosa/Agência Brasil)

“Até o final do ano passado, eu estava pensando em cursar História em uma universidade pública, através do Sistema de Seleção Unificada (SISU), ou me matricular em uma universidade particular pelo Programa Universidade Para Todos (ProUni) ou Programa de Financiamento Estudantil (FIES). Mas, agora eu fico me perguntando se esses planos irão realmente dar certo. O mundo está um verdadeiro caos. Pessoas morrendo e a educação pública, que já não era das melhores, está sendo tratada como brincadeira pelo atual governo, que não sabe lidar com os desafios da pandemia”, afirma o estudante.

Os alunos brasileiros, muitas vezes, se preparam uma vida toda para o Enem, principal caminho para iniciar o ensino superior no Brasil, e, aos poucos, ver todas as suas expectativas irem por água abaixo não é uma tarefa muito fácil.

“É muito frustrante, porque antes eu estava no Ensino Médio e já planejava todo o meu futuro acadêmico. Achava que ia dar tudo certo na minha vida, mas do nada veio um vírus que prejudicou um sonho que acumulo há muito tempo. Eu dediquei horas de estudos, meus pais investiram dinheiro na minha educação e agora o sonho está prestes a ser prejudicado. É uma situação que não sei muito bem como lidar”, desabafa Caio.

Estudantes chegando para prestar prova do ENEM, na UERJ, em 2019 (Fernando Frazão/Agência Brasil)

Lecionando em escola pública há mais de 20 anos, a professora de Língua Portuguesa Maria Ângela Pereira revela estar preocupada com os rumos que a educação tomou neste ano de 2020. Ela comenta que já viu, nos últimos meses, inúmeros alunos chorarem por não poderem ter como estudar devido à falta de condição financeira, pois às aulas estão sendo remotas através da Internet e nem todos têm a condição de pesquisar e adquirir conhecimentos online por falta de equipamentos ou conexão.

“O coronavírus mostrou para todos uma desigualdade social que há anos afeta a sociedade brasileira. A educação, alicerce fundamental para qualquer ser humano que busca aperfeiçoar e ser útil para a sociedade, foi a mais afetada. Alguns alunos já me ligaram chorando e dizendo que o ensino remoto não presta. Muitos deles estão prestes a fazer o Enem no ano que vem e se sentem desesperados. Como professora de escola pública, ver a angústia desses jovens que só buscam uma oportunidade de se sentirem úteis em uma sociedade que cobra a cada dia dos menos favorecidos, é angustiante. Não me sinto nenhum um pouco confortável”, conta a professora.

Vendo na obrigação de contribuir com uma geração que se sente prejudicada pelo ensino público em meio a uma pandemia, a docente relata que tenta ajudar seus alunos como pode, principalmente àqueles que não conseguem se adequar ao ensino virtual.

“Não aguento ver meus alunos se desesperarem. Há dias que pego meu telefone e ligo para todos os educandos que estão no terceiro ano do Ensino Médio e irão fazer o Enem, no ano que vem. Fico na linha perguntando se eles precisam de algum apoio, ajuda com os deveres ou se há alguma dúvida relacionada à redação, que conta muitos pontos no exame. Necessito me sentir útil para as futuras gerações, isso me faz muito bem. Só com a educação nós podemos garantir um futuro digno. É o que acredito!”, exclama a professora Maria.

As provas do Enem foram mantidas pelo governo e segundo o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas (Inep), as provas, que deveriam ser realizadas em novembro de 2020, ocorrerão em 17 e 24 de janeiro (prova impressa) e 31 de janeiro e 7 de fevereiro (prova digital).

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Por Eduarda Spranger, Helio Uchôa e Victor Alves (Jornal Online)